Um dia em 2023: feira CES, em Las Vegas, antecipa tecnologias do futuro
11/07/2017 - 9h58 em Tecnologia
O modelo da chinesa Rokid combina duas tecnologias que só tendem a avançar: a realidade aumentada e a inteligência artificial. Traduzindo, significa que pode projetar imagens e informações em suas lentes (ou melhor, telas), obedecendo a comandos de voz do dono - Jae C. Hong / AP

LAS VEGAS - Amanhece e, por amanhecer, como ocorre todo dia da semana exatamente às 6h, a luz lentamente ocupa o quarto. Ela primeiro tem um tom ocre, quase avermelhado, mas aí vai abrindo até um amarelo que aconchega. A playlist de Cool Jazz dispara, antes baixinho para depois se espalhar pelo ambiente. O colchão já vinha tremendo ligeiro desde uns poucos minutos antes, quando percebeu que você estava naquele ponto do sono em que o despertar é mais fácil. Bom dia. Sua casa acaba de acordá-lo.

Estas são todas tecnologias que já existem e foram demonstradas na CES 2018, feira de tecnologia que ocorreu esta semana em Las Vegas. Algumas ainda não estão à venda e talvez demorem um pouco para chegar ao mercado. Mas estamos rapidamente nos aproximando da era da tecnologia imersiva.

Hoje, o digital ocorre quando provocado: ao sacar o smartphone do bolso ou disparar um comando pelo computador. Aos poucos, porém, ela estará ao redor de nós, agindo para trazer conforto sem que sequer o percebamos. E um dia típico poderá ser assim.

A americana Kohler criou um banheiro em que tudo é integrado e controlado por app: chuveiro, temperatura da água, luz e som - Jae C. Hong / AP

Você entra no banheiro e os sensores percebem. O volume das caixas de som ali aumenta, as luzes acendem devagar. Escova de dentes à mão, posiciona-se perante o espelho. Na parte inferior do espelho, aparecem a manchete do GLOBO e o ícone de um sol, e a temperatura indica 29 graus Celsius lá fora. Será um dia agradável. Daí os resultados do jogo de ontem, que você perdeu. “Você quer ver os gols?”, uma voz feminina pergunta. “Não, obrigado”, você responde. “Seu corpo está quente”, a voz continua. “Posso recomendar um banho um pouco mais frio do que o de hábito e com mais pressão?” Foi sua cama que percebeu a temperatura. O banho um pouco diferente do habitual parece boa ideia e, assim, o chuveiro é automaticamente ajustado. Uma ducha forte.

Na tela da cozinha, você revê a lista de compras. Os ingredientes para o jantar que planeja fazer sábado já foram puxados da receita. “Abra o convite em minha rede social”, você diz, apoiado no balcão. Checa quem confirmou e com toques rápidos na tela ajusta um pouco para cima as quantidades. Os olhos pesam, ainda, uma certa leseira lhe toma o corpo. Com um toque, confirma o envio das compras para a manhã de sexta. Um alerta aparece ao pé da tela. O trânsito está ficando ruim na Lagoa. Sua assistente digital lhe recomenda sair 20 minutos antes.

Logo que senta no carro, o volante sai do painel e se ajusta a suas mãos. Você põe os óculos e vê, refletidas nas lentes, as possibilidades de rota. Nenhuma é realmente boa. “Vou pelo Rebouças”, diz, e o GPS se ajusta. Uma ré basta para sair da garagem, uns movimentos rápidos o põem na rua, e aí o carro para. Não foi num tranco, mas ele para. Por uma fração de segundo, você não entende o porquê do freio. Mas, aí, percebe um casal que passa. Está distraído, o computador do automóvel o livrou desta. É o mal-estar.

  • 'A way out' Foto: Divulgação

    'A way out'

    O jogador entra na pele de um criminoso que tenta a todo custo escapar da prisão. Para PS4, Xbox One e PCs. (Por Marcelo Balbio)

Quando já está na pista que ocupará por boa parte do percurso até o escritório, permite-se tirar as mãos do volante, que se recolhe. Você tenta prestar atenção no caminho, já que pode ser convocado a assumir a direção se um momento delicado aparecer. A verdade, porém, é que não está concentrado. Pelas lentes dos óculos, vê a sequência de setas virtuais que indicam, sobrepostas à rua real, o caminho que deve seguir.

A playlist de Cool Jazz ainda está rodando. “Toca Raul”, você fala em voz alta. Talvez uma música um pouco mais agitada o acorde. Mas os olhos continuam a pesar e, sem mesmo que você perceba, gotas de suor frio escorrem por sua testa. “Mantenha o olho na pista”, você pensa, “o carro pode precisar”. O mal-estar não passa. Não lhe ocorre o quanto está mal. Mas o carro percebe. “Há um posto de recarga à frente”, diz a voz feminina, e a seta dispara no painel. Você confere o nível da bateria. Seu automóvel está carregado. O carro quer parar. Você tem uma vontade imensa de dormir.

A ambulância não demora a chegar e os paramédicos o encontram desacordado. Não é grave — uma virose, talvez, mas você não deveria ter insistido. Desta vez, como em outras tantas, tudo deu certo. É mais uma que deve à assistente digital.

 

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